Haverá Guerra entre Estados Unidos e China?

Em 1980, essa era a pequena vila de pescadores chamada Shenzhen, na China:

Shenzhen, China em 1980

Shenzhen em 1980

E aqui está a mesma cidade apenas 30 anos mais tarde, com uma população de mais de 10 milhões de habitantes:

Shenzhen, China, atualmente

Shenzhen atualmente

Daquela época até os dias de hoje, a pobreza na região caiu de 88% para 4%. Além disso, espera-se que a economia local dobre de tamanho nos próximos 10 anos.

Para colocar as coisas em perspectiva, a economia americana cresce três vezes mais lentamente.

A pergunta que fica é a seguinte:

Como é possível sustentar esse nível de crescimento por tanto tempo?

A resposta é: um incrivelmente pesado punho de ferro.

O Partido Comunista Chinês não é apenas uma fonte de poder, ele é a principal fonte de poder. Ele mesmo elege os líderes dos outros 8 partidos nacionais (sim, há outros partidos na China).

Além disso, o Partido Comunista é dono de tudo, desde reservas petrolíferas a operadoras telefônicas à indústria de tabaco e, quando o tabaco começa a clamar a vida dos cidadãos, o partido também se responsabiliza pelos seguros de vida.

A realidade que muitos não querem aceitar é que com absoluto controle há virtualmente absoluta eficiência.

Com um simples estalar de dedos, a cidade de Shenzhen tornou-se uma zona econômica especial, espécie de bolha capitalista onde há liberdade de mercado, assim como aconteceu com várias outras cidades em pontos estratégicos do território chinês. O exemplo mais clássico é a cidade de Chongqing.

China bandeira horizontal

Como definir o modelo chinês?

O modelo já foi chamado de capitalista, comunista, cruel, corrupto e de muitas outras coisas, mas todos concordam que, independentemente da classificação, o regime chinês tem sido extremamente eficiente em atingir seus objetivos.

Em democracias, grande parte da preocupação do presidente eleito é garantir sua reeleição. Não deveria ser assim, mas você já deve ter percebido que não há muito espaço para idealismo no mundo e que as pessoas fazem de tudo para manter-se no poder.

Mas mesmo com todo o esforço dos líderes atuais, eventualmente as engrenagens que garantem a rotatividade do poder entram em andamento.

O modelo eleitoral, principalmente no Ocidente, permite que seus líderes realizem gastos (ou investimentos) hoje sem muita preocupação com o débito amanhã, uma vez que, no médio prazo, o poder tende a ser revezado com outros partidos.

Como o regime chinês afeta a política do país?

Devido ao fato de a China ser efetivamente governada por um único partido, seus líderes são menos impactados pelas demandas imediatas da população. Essa característica permite ao partido realizar planos de longo prazo.

Com mais tempo para alcançar seus objetivos e com menos burocracia, o líder chinês tem mais poder para transformar suas ideias em realidade. Além disso, o mecanismo de garantia que a economia continuará aquecida não é nada menos que 1,3 bilhão de pessoas potencialmente revoltosas caso o progresso econômico não seja mantido.

Isso é motivação o suficiente!

China, um país rural que tornou-se potência econômica:

É dessa maneira que a China evoluiu de uma sociedade primordialmente rural para uma potência econômico-industrial em poucas décadas.

Muitos nos Estados Unidos não temem o potencial destrutivo do exército chinês como deveriam. Enquanto o orçamento norte-americano ultrapassa os 600 bilhões de dólares, o chinês encontra-se pouco acima de 200 bilhões. Uma diferença monumental.

mapa da ChinaMas não devemos esquecer que o poder econômico é a forma de dominação mais eficiente. Ele é capaz de transformar inimigos em aliados e nações de extensão diminuta em titãs intercontinentais. Basta lembrarmos do Japão que, mesmo com suas limitações físicas, foi capaz de dominar grande parte do território chinês por um período.

O poder econômico determina a amplitude da esfera de influência de uma nação, além de permitir a compra de armas e o desenvolvimento de centros tecnológicos para pesquisa bélica.

O governo chinês sabe que seu direito à permanência no poder está diretamente relacionado à sua habilidade de manter o ritmo de crescimento do país.

É verdade que há altos e baixos, mas a tendência é clara: a China está angariando poder a uma taxa assustadoramente alta, fato que não agrada a atual potência dominante, os Estados Unidos da América.

Por que os Estados Unidos ou a China considerariam uma guerra?

Estados Unidos e a Estátua da Liberdade

Para o líder de um país, a guerra é apenas mais uma ferramenta no arsenal estratégico. Se uma guerra for capaz de proporcionar território, recursos ou poder maiores que seu custo, há motivação o suficiente para se iniciar um conflito. Isso é precisamente o que aconteceu com a intervenção russa na Ucrânia em 2014.

Já que os Estados Unidos são os principais compradores de bens chineses e devem mais de 1 trilhão de dólares ao grande país asiático, ambas as nações têm mais a perder com uma guerra que a ganhar. Isso sem mencionar a gigantesca destruição que tal conflito causaria aos dois países.

Existe alguma possibilidade de guerra entre Estados Unidos e China?

Sim. Mas antes de determinar o quão grande é essa possibilidade, precisamos refletir sobre o paradoxo que envolve o relacionamento desses dois países.

Que paradoxo é esse?

O mesmo interesse pessoal que impede as duas nações de buscarem a guerra as incentiva a agir como se desejassem tal conflito.

Deixe-me explicar:

Em um mundo no qual armas nucleares são uma realidade e as economias nacionais são mutuamente dependentes, a guerra é extremamente custosa. Mas, curiosamente, isso torna a ameaça de guerra ainda mais eficiente.

Ora, se seu inimigo não pode, de maneira nenhuma, declarar uma guerra contra você, não há melhor maneira de extrair vantagens dele senão ameaçando-o com um conflito armado.

míssil nuclearPreste atenção ao raciocínio: mesmo que determinado Estado não deseje qualquer guerra, ele ainda pode obter vantagens dos demais ao comportar-se como se visasse a um conflito, pois os outros Estados estarão dispostos a fazer uma série de concessões para que uma guerra não seja declarada.

Vamos utilizar a Coreia do Norte como exemplo. Em circunstâncias normais, o país jamais conseguiria manter-se intacto com um líder como Kim Jong Un no poder. É justamente a ameaça de guerra, o dedo do ditador norte-coreano sobre o botão nuclear, que permite ao regime totalitário fazer o que quer sem enfrentar consequências fatais.

A Coreia do Norte sobrevive, pois conseguiu convencer o mundo de que está disposta a entrar em guerra a qualquer momento, mesmo que todas as outras nações saibam que tal conflito significaria a destruição total do regime de Kim Jong Un.

Há similaridades no comportamento da Coreia do Norte, da China e dos Estados Unidos:

De certa maneira, a dinâmica norte-coreana não é tão diferente daquela adotada pelos Estados Unidos e pela China. Ambos demonstram estar preparados para um conflito militar caso seja necessário, mesmo que não desejem que isso aconteça.

A China, por exemplo, tem ostentado sua força no Mar do Sul da China ao construir ilhas no meio do oceano e antagonizar seus vizinhos ao ocupar as águas com embarcações militarizadas.

Não é raro que navios chineses e americanos compartilhem momentos de tensão na região. Ambos aparentam estar dispostos a um conflito embora ninguém esteja disposto a dar o primeiro passo.

A questão é a seguinte: quando uma ameaça funciona como mecanismo de obtenção de recompensas, o país potencialmente agressor esforça-se sobremaneira para ser o mais convincente possível. É precisamente o que acontece com a Coreia do Norte.

Não é necessário muita coisa para que ameaças vazias transformem-se em perigo verdadeiro. Essa dinâmica é conhecida como a Armadilha de Tucídides.

O que é a Armadilha de Tucídides?

Estátua de Tucídides

Estátua de Tucídides

Quando uma potência em ascensão (a China) ameaça uma potência já estabelecida (os Estados Unidos), a probabilidade de conflito torna-se incrivelmente alta.

O mesmo acontece entre pessoas e empresas. Aqueles que estão no poder visam a manter sua hegemonia a qualquer custo e não demoram a tratar atores externos como ameaças.

Os que estão em ascensão, na maioria das vezes, nem mesmo percebem o quão ameaçadores parecem àqueles que detêm o poder.


Como essa lógica afeta o relacionamento dos Estados Unidos com a China?

Digamos que os Estados Unidos decidam aumentar seus mecanismos de defesa somente como garantia de que o pior não aconteça.

Ao observar essa movimentação, a China interpreta tal ação como uma ameaça velada e, portanto, também aumenta seus gastos com armamentos.

Os Estados Unidos, por sua vez, concluem que o investimento chinês é uma confirmação de que os asiáticos realmente tinham segundas intenções.

A escalada militar acaba acontecendo mesmo que nenhuma das partes tenham-na desejado.

No caso dos Estados Unidos e da China, particularmente, não há apenas pequenas diferenças interpretativas, existem verdadeiros e fundamentais desentendimentos ideológicos.

Território e influência:

China bandeira horizontal

Assim como a rápida e inesperada ascensão de seu país, Xi Jinping, que morava em uma caverna durante a juventude, conseguiu trilhar um caminho de sucesso ao atingir o cargo mais alto de toda a China. Ele tornou-se o líder máximo do país asiático.

Xi Jinping é conhecido como o “presidente de todas as coisas”, pois já ocupou os cargos de:

  • Presidente da República Popular da China;
  • Secretário Geral;
  • Líder do Exército;
  • Líder de uma miríade de comitês do governo chinês.

O Xi encetou uma gigantesca campanha “anticorrupção” para expurgar qualquer rival que pudesse enfraquecer sua autoridade. E então, pela primeira vez desde Mao Zedong, adicionou seu nome à Constituição da República Popular da China.

Para garantir que todos haviam entendido a mensagem, Xi Jinping ordenou que cada um dos 88 milhões de membros do partido copiasse essa página específica da Constituição à mão.

Até então, a Constituição limitava o poder do líder chinês. O ano de 2018 deveria ser seu último no poder, mas Xi tinha planos diferentes. Ele optou por seguir uma estratégia parecida com aquela de Vladmir Putin, embora ainda mais gananciosa: permanecer no poder permanentemente e reescrever os ditames constitucionais.

Quem é Xi Jinping?

Xi Jinping

Xi Jinping

Caso ainda não esteja claro, Xi Jinping é um líder descomunalmente ambicioso. A ele não basta a ascensão ou a modernização da China, ele quer o monopólio do poder. Um dos primeiros passos para a obtenção desse objetivo é a tomada do Oceano Pacífico, que é de fato controlado pelos Estados Unidos da América.

Já há a política de filho único, a política da China única (Pequim ainda considera Taiwan como parte integral da China) e agora a política de “One Belt, One Road” (Um Cinturão, Uma Rota), também conhecida como a nova Rota da Seda.


Do que se trata essa tal de política de “One Belt, One Road”?

É uma política de ajuda econômica oferecida pela China a várias nações. Essa iniciativa conecta o gigante asiático a outros 68 países espalhados por extensas regiões do mundo, particularmente na Ásia e na África.

O principal objetivo é injetar capital chinês em projetos que visam a desenvolver esses países e ao mesmo tempo aumentar a influência de Pequim no restante do planeta.

Como alguém poderia dizer não a essa ajuda “incondicionada”?

A China nem mesmo exige que os direitos humanos sejam respeitados nesses países. Chineses oferecem empréstimos a baixíssimos custos e pedem pouquíssimo em troca.

Essa movimentação de Pequim fortalece sobremaneira sua posição no Mar do Sul da China, fato que irrita profundamente países como: Malásia, Vietnã, Brunei, Filipinas e Taiwan.

Como a China lida com as críticas que recebe acerca da região do Mar do Sul?

Ilha artificial no Mar do Sul da China

Ilha artificial no Mar do Sul da China

Para contrapor a insatisfação local e as jornadas americanas nos mares regionais, a China passou a, literalmente, despejar areia no meio do oceano com vistas a criar ilhas artificiais e anunciar seus direitos soberanos sobre a região.

A decisão da China não está relacionada à criação de mais espaço físico, afinal o país já tem um território suficientemente vasto. O que está em jogo, na verdade, são os recursos marítimos, como: petróleo, gás natural, pesca e os pontos de passagem de mais de 5 trilhões de dólares em comércio por ano.

Acima de tudo isso, a China deseja a vantagem militar que essas pequenas ilhas podem oferecer.

Caso os chineses sofram algum ataque militar, essas ilhas podem ser utilizadas como bases para repelir inimigos antes que eles tenham a chance de chegar à China continental. É muito mais vantajoso guerrear sobre o mar que em meio a cidades abarrotadas de civis.

Por que a China coopera com a Coreia do Norte?

Esse é exatamente o mesmo motivo pelo qual a China ainda atura o regime de Pyongyang. Xi Jinping não é particularmente próximo a Kim Jon Un e, por vezes, vê o líder norte-coreano como mais um problema que precisa ser administrado.

Entretanto, a Coreia do Norte age como um escudo chinês contra possíveis ataques lançados do solo da Coreia do Sul, um dos principais aliados dos Estados Unidos na região.

Basicamente, as maiores prioridades dessas duas potências nucleares são profundamente incompatíveis. Não há uma solução óbvia ou fácil.

Controle econômico:

A internet é a mesma, não importa se é acessada na Geórgia, Estados Unidos ou no país chamado Geórgia, na Eurásia.

No caso da China isso é um pouco diferente. Sites mundialmente populares como o Google e o Facebook são bloqueados pelo governo e a população fica restrita a utilizar seus pares chineses, como o Baidu e a Tencent.

Até mesmo as gigantes da tecnologia têm dificuldades de alcançar a China, onde empresas nacionais, ajudadas pelo Estado, dominam o mercado.

Parte disso acontece devido às rígidas leis de censura impostas pelo governo chinês, mas também é preciso lembrar da motivação econômica para se impedir que empresas internacionais criem raízes em solo chinês.

Chineses são especialistas em engenharia reversa. Desmembram produtos ocidentais, tanto físicos quanto digitais e extraem a tecnologia para desenvolver versões chinesas desses mesmos produtos.

A China pode fazer isso?

Não é razoável apontar o dedo para China uma vez que essa foi exatamente a mesma estratégia adotada tanto pelo Japão quanto pela Coreia do Sul durante seu período de expansão industrial.

Independentemente das questões éticas, a estratégia chinesa tem custado aos Estados Unidos aproximadamente 600 bilhões de dólares por ano.

Como americanos consideram seu poderio econômico um dos principais pilares de sua segurança nacional, os Estados Unidos enxergam as ações chinesas como uma gritante ameaça.

Quais são os próximos passos da China?

A China também tem aumentado silenciosamente seus investimentos em tecnologia espacial.

Algo que pode ser considerado secundário se levarmos em consideração que a maior promessa em termos de dominação mundial, no futuro próximo, vem do desenvolvimento de uma superinteligência digital.

Vários cientistas e alguns industrialistas da atualidade, como Elon Musk, afirmam reiteradamente que o mundo inteiro será dominado pela primeira nação ou empresa capaz de desenvolver um computador que ultrapasse as capacidades cognitivas do cérebro humano.

No vídeo abaixo Elon Musk discute sobre o perigo iminente de uma inteligência artificial que não seja controlada por qualquer sistema de pesos e contrapesos:


Quem está na frente nessa corrida pelo domínio da inteligência artificial, Estados Unidos ou China?

É importante lembrar que a matéria prima para o desenvolvimento da inteligência artificial são dados. Nenhum outro governo tem acesso a tantos dados de maneira irrestrita como a China.

Universidades chinesas já se tornaram importantes centros de pesquisa de inteligência artificial e atualmente encontram-se no caminho para rivalizar com as tradicionais e eficientes universidades americanas.

A China está em uma posição privilegiada para dominar o futuro.

Seus investimentos em inteligência artificial são vultosos e o número de estudantes formados anualmente em áreas do conhecimento relacionadas a computadores é múltiplas vezes maior que aquele dos Estados Unidos.

Aos americanos restam duas alternativas:

  • Defender sua posição atual e arriscar uma escalada mundial; ou
  • Aceitar a ascensão chinesa e perder o status de maior potência econômica e tecnológica do mundo.

bandeira dos estados unidos

Conclusão:

É perfeitamente possível evitar uma guerra entre Estados Unidos e China, mas a lógica nos mostra que os dois países ainda têm fortes motivos para alimentar suas retóricas belicistas.

Embora o caminho de relativa cooperação deva ser trilhado no futuro próximo, não podemos saber até que ponto os Estados Unidos estarão dispostos a ceder seu espaço tão arduamente conquistado.

Caso você tenha alguma pergunta ou sugestão, basta utilizar o espaço abaixo. Responderei o mais rápido possível.

Bons estudos!

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